JESUS E A RETÓRICA
Após ser preso, Jesus foi levado até Anás, sogro do sumo sacerdote Caifás, líder do Sinédrio.
Anás interrogou Jesus sobre os seus discípulos e os seus ensinamentos. Jesus respondeu:
– Eu falei às claras para o mundo. Eu sempre ensinei nas sinagogas e no Templo, onde todos os judeus se reúnem. Não falei nada escondido. Por que você me interroga? Pergunte aos que ouviram o que eu lhes falei. Eles sabem o que eu disse.
Ao terminar de dizer isso, um dos guardas que faziam a segurança de Anás deu um soco em Jesus e disse, gritando:
– É assim que responde ao sumo sacerdote?
Jesus respondeu, com sua calma, paciência e amor de sempre para o soldado:
– Se eu falei mal, mostre o que há de mal. Mas, se falei bem, por que você bateu em mim?
Essa pergunta retórica deixou todos calados, sem terem o que responder. Anás, irritado, enviou Jesus para ser julgado pelo seu genro, Caifás.
Esse trecho, já logo no início de toda a via de crucificação de Jesus, deixa claro a sua evolução espiritual.
Jesus sabia que seria morto.
Mesmo assim, mantém a calma.
E é essa calma que o permitiu responder a todas as questões, não apenas se defendendo, mas também ensinando.
O Mestre lança mão de uma pergunta altamente retórica para levar o guarda que o agrediu, bem como os demais presentes, a refletirem sobre as suas ações.
Perguntas retóricas são aquelas feitas para que o ouvinte possa refletir e chegar a conclusões mais profundas sobre o tema em questão.
Ao questionar o soldado sobre o que ele havia dito de errado e, em caso negativo, por que fora agredido, Jesus o levou a questionar o motivo pelo qual usou a violência.
Note que Jesus não profere um sermão, cheio de conceitos elevados sobre a paz.
Ele faz o violento refletir.
O Mestre faz isso porque ele sabe que sermões altamente filosóficos e profundos só funcionam para quem está consciente e aberto ao entendimento das lições ministradas, como os seus discípulos.
Já quem se encontra inconsciente, arredio, refratário a lições, perguntas retóricas fazem com que a pessoa entre em profundo estado de reflexão como forma de se conscientizar sobre o tema em questão.
O soldado entrou nesse estado. Provavelmente, ele percebeu o erro que cometera, agredindo Jesus.
Por isso Anás encerra rapidamente a questão e envia Jesus para Caifás: para que ninguém mais que ali estava pudesse refletir e se questionar.
Grandes mestres, Jesus o maior, sabem que sermões nada ensinam para quem não quer aprender. E eles sabem que perguntas retóricas tem o poder de conscientizar os inconscientes, ensinando.
O problema é que muitos que passam por esse tipo de pergunta, mesmo tomando consciência dos próprios erros, escolhem deliberadamente continuarem no caminho do mal. Daí, eles não podem mais alegar ignorância.
Se o soldado se conscientizou e continuou agindo com violência, ele será muito mais responsável do que era antes.
Jovem! Nós já nos conscientizamos sobre o evangelho de Jesus. Não podemos mais alegar ignorância. Cabe a nós, então, escolhermos conscientemente o caminho do bem.
Vinicius Del Ry Menezes


