A NÊMESIS DENTRO DE NÓS

A NÊMESIS DENTRO DE NÓS

25 de novembro de 2019 Amor e Luz 0

Em tempos de mobilidade da justiça, nos quais importantes julgamentos ocorrem atualmente, é fundamental reacender uma discussão que toca a tênue linha dos sentimentos mais profundos do ser humano, ex., Suzane Richthofen e os irmãos Cravinhos, e os sequestradores e assassinos dos jovens namorados Liana Friedenbach e Felipe Caffé. O povo vai aos Fóruns gritar ofensas e pedir prisão perpétua ou coisas piores, aos criminosos, na tentativa de aliviar o turbilhão de emoções negativas causado pelas crueldades. E é justamente essa reação impulsiva que traz a ambiguidade de valores no âmago das pessoas. Vingança ou Justiça? Bem no fundo destas manifestações, qual dos dois princípios prevalece?

É próprio dos espíritos em aprendizado diz Kardec, sentir o conceito de justiça, apurar-se conforme a evolução moral. Mas disse também o mestre que paixões misturam-se a esse conceito formando um falso prisma, maquiando sua verdadeira face e sentido. Dai que, invariavelmente, deparamo-nos com esse conflito em situações como as que descrevemos acima. Certas atitudes nos causam tamanha incredulidade e repulso, vou vendo nossos brios que desejamos imediatamente anular, ceifar seus protagonistas.

Não raro ouvimos nos últimos tempos em relação à jovem Suzane sentenças como “Ela vai pagar pelo que fez”, ou “Essa não sobrevive na cadeia”, e mesmo “É um mostro, não tem mais jeito”. Julgamentos individuais que se tornam coletivos à medida que a mídia a transforma na mais popular vilã do horário nobre, condenando quaisquer justificativas, piedades ou alternativas. Fica mais difícil o ato de centrar-se fria e racionalmente para refletir. E é nesse momento que se deve buscar o espaço, a pausa no noticiário, a fim de se conseguir o equilíbrio e a formação de uma opinião sensata.

O Dicionário Houaiss traz como definição Justiça é o princípio moral em nome do qual o direito deve ser respeitado, e o exercício do poder de fazer justiça, de fazer valer o direito de cada, e ainda como Vingança o ato lesivo, desforra, ou qualquer coisa que castiga, pena ou punição. Interessante como somente esses dados gramaticais já vão de encontro aos nossos intempestivos pensamentos sobre a criminalidade, causando-nos constrangimento e choque, e avaliarmos qual dos dois se aproxima mais de nossa reação às situações como estas de violência.

Utilizando ensinamentos que o espiritismo oferece, obtém-se maior grau de esclarecimento. Valores como perdão, compreensão, caridade, e progresso, fornecem ao espírita forte embasamento moral para conclusões e sentidos da vida a serem tomados. Se levarmos em conta o fato de que provavelmente, essa moça e os outros têm ou tiveram um distúrbio chamado psicopatia e que, como doentes, precisam de assistência torna-se mais brando o julgamento.

E, se pensarmos em um espírito que cometeu um erro,que sofrerá pela consciência do que fez e que se arrependerá, compreendendo a falha e progredindo, teremos um panorama bem além de nossa mera encarnação, e um deslize provisório, não importando o tempo para que isso ocorra.

Além disso, para fazer o que aceita o dicionário por Justiça, temos mais um critério em “O Livro dos Espíritos”, sobre como fazer um julgamento de valor. Deve-se avaliar a intenção e a utilidade dos atos. Qual a intenção por traz de querermos pena de morte? Livrar-se do problema e retaliar o crime, como olho por olho? Qual a utilidade de se condenar uma pessoa à prisão perpétua? Ter a satisfação de ver o culpado sofrendo como suas vítimas, quando deveríamos nos preocupar com a recuperação moral do criminoso e sua relação com a sociedade? O pai de Liana não viu e nem falou com seus algozes. Tão pouco quis fazer da filha a sensação do momento. Transformou seu sofrimento em uma ação útil quando tenta mudar a Lei para os menores infratores. Sem entrar no mérito da questão, pelo menos ele realiza algo de que todos poderão usufruir.

Obviamente, não quer dizer que eles não devam cumprir as penas legais que a justiça impõe. Afinal, desrespeitaram o limite do próximo, agiram em desacordo com os demais e devem obedecer ao que a Lei determina, apesar de nosso sistema prisional estar longe do que realmente está escrito. Como espíritas, temos a obrigação moral de ponderar os argumentos disponíveis e elevar nossos julgamentos a outro nível. Uma vez que compreendemos a grandeza da evolução e suas nuanças e deveres, não poderemos nos deixar enganar pela ânsia da vingança, fruto da impulsividade.

Não é fácil distinguir o que é justo do que é castigo. O estreito caminho que os separam pode ser o mesmo que os unem. Nêmesis é uma figura da mitologia Grega, a Deusa da Justiça e da Vingança. Um único ser que possui ambos os conceitos intrínsecos, sempre em luta, sempre decidindo, julgando e punindo. Cada um de nós tem algo dessa deusa: razão e emoção travam embates constantes que se refletem em nossos pensamentos e atos. Como amainar a Deusa em nós é um aprendizado que temos que reiniciar a cada situação, a cada teste, que a vida nos prega, galgando, assim, um a um o passo da justa caminhada evolutiva.

Texto de C. Regis

Retirado da Revista Espírita Delfos