A NÊMESIS DENTRO DE NÓS

Em tempos de mobilidade da justiça, nos quais importantes julgamentos ocorrem atualmente, é fundamental reacender uma discussão que toca a tênue linha dos sentimentos mais profundos do ser humano, ex., filhos que assassinam pais e, sequestradores que sacrificam suas vítimas. O povo vai aos Fóruns gritar ofensas e pedir prisão perpétua ou coisas piores, aos criminosos, na tentativa de aliviar o turbilhão de emoções negativas causadas pelas crueldades. E é justamente essa reação impulsiva que traz a ambiguidade de valores no âmago das pessoas. Vingança ou Justiça? Bem no fundo destas manifestações, qual dos dois princípios prevalece?
É próprio dos espíritos em aprendizado diz Kardec, sentir o conceito de justiça, apurar-se conforme a evolução moral. Mas disse também o mestre que paixões misturam-se a esse conceito formando um falso prisma, maquiando sua verdadeira face e sentido. Dai que, invariavelmente, deparamo-nos com esse conflito em situações como as que descrevemos acima. Certas atitudes nos causam tamanha incredulidade e repulsa, vou vendo nossos brios que desejamos imediatamente anular, ceifar seus protagonistas.
Julgamentos individuais que se tornam coletivos à medida que a mídia transforma a pessoa em vilã do horário nobre, condenando quaisquer justificativas, piedades ou alternativas. Fica mais difícil o ato de centrar-se fria e racionalmente para refletir. É nesse momento que se deve buscar uma pausa no noticiário, a fim de se conseguir o equilíbrio e a formação de uma opinião sensata.
O Dicionário Houaiss traz como definição que Justiça é o princípio moral em nome do qual o direito deve ser respeitado, e o exercício do poder de fazer justiça, e ainda como Vingança o ato lesivo, desforra, ou qualquer coisa que castiga ou puna. Interessante como estas definições já vão de encontro aos nossos intempestivos pensamentos sobre a criminalidade.
Utilizando ensinamentos que o espiritismo oferece, obtém-se maior grau de esclarecimento. Valores como perdão, compreensão, caridade, e progresso, fornecem ao espírita forte embasamento moral para conclusões e sentidos da vida a serem tomados. Considerando o fato de que, provavelmente, muitos criminosos têm ou tiveram um distúrbio chamado psicopatia e que, como doentes, precisam de assistência, torna-se mais brando o julgamento.
E, se pensarmos em um espírito que cometeu um erro, que sofrerá pela consciência do que fez e que se arrependerá, compreendendo a falha e progredindo, teremos um panorama bem além de nossa mera encarnação, e um deslize provisório, não importando o tempo para que isso ocorra.
Em “O Livro dos Espíritos”, para se fazer Justiça, deve-se avaliar a intenção e a utilidade dos atos. Qual a intenção por traz de querermos pena de morte? Livrar-se do problema e retaliar o crime, como olho por olho? Qual a utilidade de se condenar uma pessoa à prisão perpétua? Ter a satisfação de ver o culpado sofrendo como suas vítimas, quando deveríamos nos preocupar com a recuperação moral do criminoso e sua relação com a sociedade?
Obviamente, não quer dizer que eles não devam cumprir as penas legais que a justiça impõe. Afinal, desrespeitaram o limite do próximo, agiram em desacordo com os demais e devem obedecer ao que a lei determina. Como espíritas, temos a obrigação moral de ponderar os argumentos disponíveis e elevar nossos julgamentos a outro nível. Uma vez que compreendemos a grandeza da evolução e suas nuanças e deveres, não poderemos nos deixar enganar pela ânsia da vingança, fruto da impulsividade.
Não é fácil distinguir o que é justo do que é castigo. O estreito caminho que os separam pode ser o mesmo que os unem. Nêmesis é uma figura da mitologia Grega, a Deusa da Justiça e da Vingança. Um único ser que possui ambos os conceitos intrínsecos, sempre em luta, sempre decidindo, julgando e punindo. Cada um de nós tem algo dessa deusa: razão e emoção travam embates constantes que se refletem em nossos pensamentos e atos. Como amainar a Deusa em nós é um aprendizado que temos que reiniciar a cada situação, a cada teste, que a vida nos prega, galgando, assim, um a um o passo da justa caminhada evolutiva.
Texto adaptado de C. Regis
Revista Espírita Delfos