JESUS E JUDAS

JESUS E JUDAS

13/08/2020 Juventude 0

Algemado, Jesus estava de joelhos no meio do tribunal improvisado no Sinédrio, o órgão político-religioso dos judeus em Jerusalém. Já era quase madrugada, mas grande multidão de fariseus e sacerdotes se acotovelavam para o falso julgamento conduzido por Caifás, o sumo sacerdote.

O ambiente era de ódio contra Jesus. Testemunhas compradas foram trazidas para mentirem sobre ele. Caifás manipulava o interrogatório de modo a surpreender Jesus em alguma questão na qual pudesse condená-lo à morte.

Mas Jesus, como um manso cordeiro, sofria toda aquela injustiça de forma serena. E foi com um olhar sereno que pousou seus olhos em Judas.

Aquele olhar tranquilo, sem julgamentos, sem mágoas, sem um mínimo de acusação contra Judas, fez com que ele compreendesse, em definitivo, qual era a verdadeira mensagem de Cristo, na terra.

Judas Iscariotes nascera em uma pequena cidade afastada de Jerusalém. Filho de comerciantes, desde muito cedo aprendera a arte da negociação e o valor do dinheiro. Ambicioso, sonhava ir para Jerusalém e se tornar um doutor da lei, ou seja, alguém de muita importância nos rumos políticos-religiosos da nação.

Revoltado contra a dominação romana, Judas tinha uma sincera e honesta esperança de que o tão falado Messias seria o grande libertador de Israel.

Por isso, ao conhecer Jesus, tornara-se seu discípulo, por acreditar, do fundo de seu coração idealista, que o Mestre seria o grande rei no novo reino que proclamaria em Israel.

Embora tivesse um coração bom e fosse uma pessoa justa, além de muito inteligente e trabalhador, Judas vivia iludido em relação aos ensinamentos de Jesus.

Ele tinha muitas dificuldades em entender o real significado das parábolas, dos ensinamentos e das inúmeras metáforas. Enquanto os demais discípulos, em sua maioria semianalfabetos, compreendiam a essência da mensagem de Jesus, Judas apegava-se à forma, acreditando literalmente que o reino no qual Cristo seria rei fosse o próprio reino de Israel.

Por isso Judas acreditava sinceramente que Jesus se proclamaria soberano, expulsaria os dominadores romanos, acabaria com a corrupção do Sinédrio e promoveria a igualdade social, acabando com a miséria do povo tão sofrido. Baseado nessa crença, Judas entregou Jesus ao Sinédrio, como forma de antecipar essa tão sonhada revolução social.

Mas ali, naquele tribunal injusto, completamente transtornado, Judas nada entendia. Por que o Mestre não se proclama rei? Por que ele não se levanta, quebra as algemas e derruba as paredes? Por que Jesus, que tem o poder de curar cegos e aleijados, não diz algo em sua própria defesa? Por que Jesus permite-se ser esmurrado e cuspido como se fosse menos do que um ser humano?

A resposta a todas as suas dúvidas veio ao cruzar o olhar com Jesus. Aquele doce olhar, irradiando o mais profundo amor, envolvia-o e dissipava as sombras nas quais Judas havia caído por sua própria invigilância e precipitação.

Somente agora entendia. Somente agora via tudo de forma clara, cristalina. O reino no qual Jesus declarava ser rei não era o da política, nem mesmo o da religião, mas sim o reino do amor, onde o respeito ao próximo deve ser o grande roteiro de vida para o crescimento espiritual.

Judas compreendeu, tardiamente, que a libertação proposta por Jesus não era contra os romanos, mas, sim, uma libertação das nossas próprias sombras psíquicas baseadas no ego doente rumo ao amadurecimento espiritual.

Arrependido, Judas tentou esboçar uma reação para proteger o seu amado Mestre, mas era tarde: a condenação à morte já tinha sido proferida por Caifás e Jesus era levado a Pilatos, a quem cabia confirmar o veredicto.

Jovem! Até hoje julgamos Judas como um reles traidor, esquecendo que todos nós, que nos dizemos cristãos, diariamente traímos nosso Mestre ao alegarmos não entender o evangelho, ao fingirmos que aqueles ensinamentos nada têm a ver conosco e principalmente quando afirmamos que os ensinamentos de Jesus são bonitos no papel, mas impossíveis de ser aplicados na vida real. Não sejamos como Judas, apegados às palavras, porque hoje, dois mil anos depois, já temos condições de entender a essência do ensinamento evangélico e nos libertarmos de nossas próprias sombras internas.

Vinicius Del Ry Menezes

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