A TÁBUA

A TÁBUA

14/12/2020 Amor e Luz 0

Quando menino eu era traquinas rabugento, respondia a tudo que me dissessem e não contribuía absolutamente para que nossa casa fosse um paraíso. Muito pelo contrário.

Meus pais me aconselhavam com paciência infinita e com muito amor, sem que eu, entretanto, seguisse os seus conselhos.

Um dia papai me chamou para conversarmos. Eu tinha feito diabruras de toda espécie e pensei que ele tinha perdido a paciência e ia, ou dar-me uma surra, ou um castigo e uma repreensão.

Ele, todavia, não fez nada disso. Não parecia aborrecido e simplesmente me disse:

– Filho, eu percebo que você não tem idéia do que é a sua conduta. Mas pensei em algo que poderá mostrar-lhe isso muito bem. É uma brincadeira, mas poderá ajudá-lo muito. Venha comigo.

Levou-me à sua improvisada oficina de trabalho. Lá dentro falou-me:

– Veja, tenho aqui uma tábua nova, lisa e bonita. Todas as vezes que você desobedecer ou tiver uma ação indevida, espetarei um prego nela.

Pobre tábua! Em breve estava crivada de pregos! Mas, a cada vez que eu ouvia meu pai batendo o martelo, sentia um aperto por dentro. Não era só a perda daquela tábua tão bonita; aquilo era também, uma humilhação que eu mesmo me infligia.

 Até que um dia, quando já havia pouco espaço para outros pregos, eu me compadeci da tábua e desejei de todo o coração, vê-la nova, bonita e polida como era. Fui correndo fazer essa confissão a meu pai e ele, fingindo ter pensado um pouco me disse:

– Podemos tentar uma coisa. De cada vez que você se portar bem, em qualquer situação, eu arranco um prego. Vamos experimentar.

Os pregos foram desaparecendo até que, ao fim de certo tempo, não havia nenhum. Mas não fiquei contente. É que reparei que a tábua, embora não tivesse pregos, guardava as marcas deles.

Discuti isso com meu pai que me respondeu:

– É verdade, meu filho, os pregos desapareceram, porém as marcas nunca poderão ser apagadas. Acontece o mesmo com o nosso coração. Cada má ação que praticamos deixa nele uma feia marca. E mesmo que deixarmos de cometer a falta, a marca fica lá: é a culpa.

Nunca mais me esqueci daqueles pregos e da tábua lisa e polida, cuja beleza foi inapelavelmente destruída. E passei a tomar muito cuidado para que a sensação da culpa não marcasse daquela forma meu coração. Essa experiência me fez pensar muito e estou certo de que uma vida digna e bem vivida poderá levar a um coração, até o fim, a se manter livre de qualquer prego e das marcas consequentes.

Arnaldo dos Santos

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